Por: C. Vaz P
IVersos chilreando amores
Em papel também há flores
Que parecem naturais.
II
Não foi grande a descoberta
A do Cabo Bojador.
Minh' alma foi mais esperta.
Dobrou o cabo do Amor...
III
O coelho seja onde
for,A sua casa procura.
Também já o meu amor,
No teu coração fez lura...
IV
O teu amor tão
veementeÉ como as ondas do mar.
Meu coração, sê prudente!
Podes vir a naufragar.
V
Dizes, meu cabelo
de oiro,Que o meu olhar é de prata:
Não queiras tanto tesoiro
Porque o oiro, às vezes, mata.
VI
É como fogo o
ciúme.Amor, que provas vais dar?
Mais se acende e aguenta o lume
Quanto mais se lhe soprar...
VII
Não gosto de ouvir
as queixasQue fazes do meu amor.
Eu quero... Tu não me deixas
Amar-te com mais ardor...
VIII
Não tem noivo? Não
se aflijaUm anúncio e pronto: Igreja!
Senhora nova, precisa
Cavalheiro que a proteja...
IX
Ora viu?! Ei-la
casada.Para quê todo esse afã?
Não foi preciso mais nada
P'ra casar...em Campanhã...
Com lágrimas me escreves-te,
Eu respondi-te com mágoa.
Nem li bem o que disseste...
Ai, não me escrevas com água.
XI
Muita gente me
revelaQue Himeneu é bom sujeito.
Mas leva muita donzela
A sofrer queixa do peito...
XII
Não te lamentes
donzela,Por não encontrares marido.
Perdeu-se o testo a panela,
Pôs-se-lh’outro e tem servido...
Queria um dia morrer...
E depois, ressuscitado,
Para eu também saber,
Se, por mim, tinhas chorado...
XIV
Fui ao baile. Não
danceiAquela dança da moda.
Cotaram...mas não pequei
No borborinho da roda.
XV
Riquezas, p'ra que
as quero?Se o teu amor tenho enfim!
Das riquezas não espero
Me tragam ventura assim...
XVI
Deixa-te estar
junto a mim,Não gosto de te ver longe...
Mas não me chames "seu ruim"
Que a veste não faz o monge...
XVII
Adormeci com
cansaço,De tanto tempo cismar
Por me dizeres que um abraço
Só a "um" se pode dar...
Deixa ver, meu lindo bem,
A palma da tua mão.
Eu quero ver se ela tem
A linha do coração...
XIX
Amava-a...não
tinha a sorte,De ser amado por ela.
Cheguei a pedir a morte...
Agora escondo-me dela!
XX
Fiz do coração
Sacrário,P'ra lá guardar os teus beijos.
Eu nunca fui refractário
Ao serviço dos desejos.
XXI
Ouvi bater ao
portão,Fui ver não era ninguém,
Pois se era meu coração!
O amor que enganos, tem...
XXII
Gaiteiro que vais
a festa,De lindo rosto, a tentar...
Vai p'la sombra, que o Sol cresta,
E a mancha custa a tirar...
XXIII
Fito a Lua. A tonta ri-se
E o luar põe-se a tremer...
Ai Jesus! Se ela me visse
Falar contigo, mulher!...
XXIV
Mulher e flor. Duas rosas
De aspecto muito diferente.
Mas iguais em ser formosas
E em ferir, também a gente...
XXV
Ela toda vaporosa...
(Ó luxuria que és tão louca!)
Ele a mirá-la, formosa,
Crescia-lhe água na boca...
XXVI
Que linda! sou Elegante!
Diria em frente do espelho.
No sofá chorava o amante:
Que triste um homem ser velho!...
XXVII
Já fui grande, já fui nobre,
Sobre o meu peito um Brazão.
Hoje, ai de mim! Que vivo pobre,
Perdi a tua afeição...
XXVIII
Andavas sempre risonha
És triste agora! O que foi?
Meu coração já não sonha
E assim desperto mais dói.
XXIX
E tão precisa a alegria
Como o Sol quando há neve.
Mas já o povo diria:
Que cabecita tão leve!...
XXX
Se eu me casasse
teriaMuito com que enriquecer,
Mas não tiro a lotaria
Que posso, às vezes, perder...
XXXI
Se no amor és
atreitoNão insistas na escolha.
E sempre um "amor- perfeito".
Nem que lhe falte uma folha...
XXXII
Trazes, acaso,
escondidaAlguma carta no seio?
Ai, quem me dera, querida,
Fazer eu esse correio!...
XXXIII
Moreninha, isso não é
Causa p'ra tanta arrelia.
É bom, morena, o café
E toda a gente o aprecia...
XXXIV
Capas negras de estudantes
Seus rasgões-risos e ais...
Toutinegras inconstantes
Cantando nos Salgueirais.
XXXV
O maior dia do ano
Sabes qual é, porventura?
Vinte e dois de Junho,- Engano!
É o dia da escritura.
XXXVI
Há penas que não são penas
Conforme o sitio onde estão
Penas d'aves são amenas,
Penas de amor duras são...
XXXVII
Quiseste ficar
solteiro.Sem cumprir a lei do amor.
Não dá fruto a macieira,
De que serve estar em flor.
XXXVIII
Chamaste-me,
rouxinol.Que nome improprio aquele!
Também canto hinos ao Sol,
Mas não tenho as penas dele...
XXXIX
Uma mãe junto dum berço,
Enlouquece de caminho.
Tão depressa reza o terço,
Como já canta baixinho.
XL
Nunca deixes ir embora,
Um pobre sem levar pão.
Pedi-te amor e tu agora
Disseste-me a mim que não.
XLI
É herói quem vem
da guerra,Todos querem ver-lhe o rosto.
Eu fiz conquistas na terra,
Nem sequer subi de posto.
XLII
Desde a cabecita aos pés
És mesmo um anjo...sem asas.
Mas Anjo mau, pois não vês
Meu coração sobre brasas...
XLIII
Os teus olhos são
safirasCom que o meu amor exaltas.
Olhos azuis são mentiras!
É o que tem pedras falsas...
XLIV
Quem der um beijo num rosto
De borbulhas salpicado,
Deve achar o mesmo gosto
Dum diospiro melado!..
XLV
Mas um beijo de donzela,
Cujo, o rosto lindo fosse,
Esse então será canela
Sobre um prato de arroz doce!..
XLVI
Mordam-se os outros de inveja.
Sou feliz...mas tenho medo
Que a fonte junto da Igreja
Me descubra este segredo...
XLVII
Cupido, para que
furtas,A tua vida aos recreios?
Vês decotes, saias curtas
Boas pernas, lindos seios...
XLVIII
Tem um belo predicado,
Esta moda meus amigo!
Não vai o noivo enganado
Na qualidade do artigo...
XLIX
Pedes-me beijos, menina,
Muitos fazem mal. Descansa,
A Igreja nos ensina
"Contra a gula, temperança...
L
Por gracejo, isto não tome:
Tanto rezei noutro dia
Que baralhava o seu nome,
Com o da Virgem Maria!..
LI
Beijinhos nuns lábios grossos,
Vermelhos de amor ardente,
São assim como os tremoços,
Que nunca fartam a gente...
LII
Que bem lhe fica a mantilha
Quando vai para a igreja!
Reze muito, minha filha
Peça a Deus que nos proteja...
LIII
O teu rosto assim
trigueiroFaz-te o olhar entristecer.
Nos dias de nevoeiro
Custa-lhe o Sol a romper...
LIV
Tu gostas de quando, em quando,
Variar o "doce aprisco".
Olha que esse contrabando
Também tem guardas do Fisco,
LV
Sempre amor, sempre tormento,
Não há bem que mal não soe.
Tinha feito um juramento,
Quebrei-o... Deus me perdoe!
XLVI
Não te queres
casar aindaQue esses amores são daninhos,
Pois olha: a rosa é bem linda
E tem bastantes espinhos...
LVII
Se para amar
bastam juras,Podes dormir coração!
Mas não sei p'ra que procuras
O que está na tua mão...
LVIII
O teu coração é
ternoMuda porem de estação:
Esfria quando é Inverno,
Aquece, mal chega o Verão...
Não és bonita?! Que ideia!
Não tens tu, bom sentimento?..
Mesmo que fosses mais feia
Sempre eras bela por dentro...
LX
Se na rua te
lobrigo,-Pomba branca que esvoaça-,
Digo cá, para comigo:
Um Anjo do Ceu que passa...
LXI
Os teus peitos tão
branquinhosSão duas rolinhas mansas.
A muito que nesses ninhos
Dormem as minhas esperanças...
LXII
O teu silencio
fingido,Foi resposta ao meu amor.
Não se deve dar guarida
Ao sentimento traidor...
LXIII
Amor sincero,
inocente,É remédio salutar.
Tenho o coração doente
Venha amor para o curar...
LXIV
Queria abraços e beijosTer dinheiro e alimento.
São tantos os meus desejos
Que a desejar me contento...
LXV
Pus-me a brincar
sobre a areiaEscrevi nela o teu nome.
Mas que sorte, a maré cheia!
A tua graça levou-me...
LXVI
Disseste-me adeus
com um lençoDei-te a alma num arranco.
Não te vi mais...ora eu penso
Que aquele lenço era branco...
LXVII
Tens de me tornar
a darOs beijos que me roubas-te,
Para Deus te perdoar
A falta que praticaste...
Na senda do amor vagueias
Meu coração, perdidinho!...
Ó Senhora das Candeias
Alumiai-lhe o caminho...
LXIX
..."Meu rico
Senhor da PedraPerdoai-me estas folias!
Bem sabeis, Senhor da Pedra
Que esta vida são dois dias..."
LXX
Os teus olhos são
estrelasDe noite e dia a brilhar.
Vigilantes sentinelas
Para o meu amor guardar...
LXXI
O melro que tens
no eiradoTodo o dia está a cantar.
Mas mal me vê a teu lado
Não canta, põe-se a escutar...
LXXIV
Se uma flor,
murcha o craveiroOutra nasce em seu lugar.
Amor igual ao primeiro
É muito raro, encontrar...
LXXV
Ó crentes de Nazaré,A minha amada morreu!
Aumentai a vossa Fé
Que há duas Virgens no Céu!...
LXXVI
São doces como a
aletriaOs teus beijos, duma vez!
Se abrires confeitaria
Tens em mim um bom freguês...
LXXVII
Trazes no seio, a
preceito,Um raminho de junquilhos.
Mais tarde trarás ao peito
Açucenas - os teus filhos...
LXXVIII
Tanto cai na pedra
a águaQue a vai furando ao cair.
Só eu chorei tanta magoa,
Teu coração sem se abrir...
LXXIX
Deitei sortes a
aventuraNo dia de São João.
Andei depois à procura,
Tinha o teu nome na mão...
LXXX
Mal a preguei no
corpeteDesfolhou-se a peonía.
Bem se diz que um alfinete
É amor, de um ano e um dia...
LXXXI
Oiço crianças a
rirFalando em coisas de amor...
...Botões de roseiras a abrir
Que amanhã já estão em flor...
LXXXII
Tens no teu retracto,
um doce,Lampejo de amor na vista.
Queira Deus que ele não fosse
Dedicado ao retratista...
LXXXIII
Preparai, moças
solteiras,As vossas galas de amor.
Que eu já vejo as laranjeiras
Todas abertas em flor...
LXXXIV
Meu coração já
tropeçaPela rua d'amargura.
Fez assim uma promessa
Se este amor tivesse cura!...
LXXXV
Canta a sereia no
marNa Devesa a rola canta.
Eu, se vou para cantar,
Prende-se m'a voz na garganta...
LXXXVI
Salvei-te! Não
respondes-te,Deitaste os olhos ao chão.
Teu rosto porque escondeste
Tinhas nele o coração!...
LXXXVII
Amor firme e
duradoiroSem provas...- é disparate!
Se não tem contraste o oiro
Já não é de bom quilate...
LXXXVIII
Fiz do teu amor
santuário,dos teus beijos livro de horas.
Também fiz lindo rosário
Com as lágrimas que choras...
LXXXIX
Sofria do coração;Fui consultar o doutor.
Viu-me o pulso e riu-se...- Então?
-Não curo males de amor...
XC
Pinchando pelos
caminhosJá vêm as crianças da escola...
São alegres passarinhos
Que fugiram da gaiola...
XCI
"Lágrimas e
amor-perfeito""Saudades" "suspiros" E AIS:
Um jardim dentro em meu peito
Cujos as flores não secam mais
XCII
Vi-te no
confessionárioToda confusa e corada...
Que pena não ser vigário
P'ras seres minha confessada!...
XCIII
Se em vida morro
por elas,Quando morrer quero então
Quatro cachopas com velas
E seis pegando ao caixão...
XCV
Sonhei com o meu
casamentoMas teve o sonho mau fim.
Pois acordei no momento
Em que ia-mos dar o "sim"...
XCVI
Quando vens do
chafariz,-Braços nus, arregaçada-
Mal te vê o Padre Luís
Toma logo uma pitada...
Coração que nunca teve
De amor qualquer sentimento,
Também por certo não deve
Ao amor seu nascimento...
XCVIII
O que as mulheres
se consomem Em ser livres, sem tutela!
Mas então! não foi do homem...
Que as fez Deus-duma costela?
XCIX
Fazer versos de
improvisoTem sempre um valor qualquer:
Mais não seja o bem juízo
Que de mim podem fazer!...
Lábios rubros de moçoila,
Olhos negros de quem amo...
Transformaram-se em "papoilas"
Eu então fiz este "ramo"